sexta-feira, setembro 30, 2016

Pirinéus - Acto III

PIRINÉUS - RESPIRAR!

Acto III - SEGUINDO MARIOLAS



As maiores flores Edelweiss que já vimos.


O planeamento foi feito ainda no rescaldo da aventura vivida na parede da Fraucata.
“Vai ser duro!” - advertiu a Daniela - “Mas será um novo desafio!” - rematou.
O plano consistia em abrir uma nova via na já familiar parede do Abismo de Carriata mas, desta vez, durante uma única jornada. Apenas iriamos transportar duas pequenas mochilas e as cordas duplas. Nada de cordas fixas, nem lances escalados preliminarmente. Era um plano muito simples: aproximação, escalar cerca de 300 metros de rocha periclitante e descida contornando e destrepando a muralha de calcário.


Abismo de Carriata. Uma parede já conhecida com aventuras solitárias para oferecer.


Durante dois dias descansámos o físico - quanto a mim, o foco estava na recuperação dos tornozelos - e preparámos o psicológico.
Às seis e meia da manhã, à luz dos frontais, subíamos o trilho irregular e empinado em direcção à parede mais emblemática de Ordesa, o Tozal del Mallo. Acompanhava-nos de perto um casal de escaladores que (adivinhámos) se dirigiam para o Tozal. Quando se sai do bosque denso os caminhos dividem-se e é nesse momento que se dá de caras com o Abismo de Carriata. O nome é curioso e sugestivo, adequado. “Abismo, aí vamos nós!”
Depois da “paliza” da escalada anterior, sonhávamos com uma via mais amena. Sonhávamos com uma escalada fluída e de dificuldade técnica, digamos… mais “atractiva”!
“Onde param os quintos graus nesta terra?” – perguntámo-nos na galhofa.


"Onde param os quintos?"


Longe de encontrarmos uma “via amena”, o que descobrimos foi uma escalada exigente. Em cada reunião do itinerário, de pescoços assomados para trás, perscrutávamos o futuro acima das nossas cabeças. A cada: “Creio que se formos por ali, talvez as dificuldades sejam menores.”, sucediam-se os inevitáveis: “Fo… isto é duro! Isto não se parece nada com o que imaginámos!” Apenas de cima para baixo era possível compreender a verticalidade do mundo em que estávamos metidos.


Escalando lego...


Praticamente toda a via desenrolava-se sobre grandes lastras de calcário que se projectavam para fora, causando uma perturbadora sensação de poiso de pássaro. Pessoalmente, desfrutava a cada descanso, porque este representava uma vitória mais e a possibilidade de usufruir de umas visões muito aéreas das florestas que se perdiam lá bem no fundo do vale.


No penúltimo lance, o mais duro.


Apesar das dificuldades encontradas o dia correu bem, bastante bem até.
Atingimos o cimo da nossa via com bastante tempo para realizar a descida com tranquilidade.
Sentados nos prados superiores do vale, já sem a prisão dos arneses e do equipamento de escalada, a uma distância de segurança do precipício por baixo dos pés, pudemos apreciar as vistas esplendorosas. 


Prestes a entrar numa penosa chaminé estranguladora. 


"Reunião. Uffff!"



Futuro!


Desde aquele ponto, a parede sul do Tozal del Mallo, com cerca de 400 metros, apresentava-se de perfil, mesmo assim, constituía uma visão magnífica difícil de ignorar.
Descemos em modo de passeio, inebriados pelas montanhas, sem desperdiçar os momentos de contemplação. Virando a cabeça para trás surgiam de novo as paredes e com elas surgiam também novas ideias, novos projectos. “Em breve…” Mas isso seria para depois. O momento era para descer em direcção ao descanso.
Zigue-zagueando o trilho sinuoso, saltitando os ressaltes e as inúmeras pedras, trocámos poucas palavras. Em silêncio celebrámos as andanças verticais. Celebrámos a aventura. Celebrámos a vida.
Para trás ficava o território selvagem das montanhas… à nossa frente surgia de novo aquela sensação de…

… saudade.


Paulo Roxo


PIRINÉUS - RESPIRAR! 

FIM




Abraçando a montanha e a Natureza.


Topo da via MARIOLAS:




segunda-feira, setembro 26, 2016

Pirinéus - acto II

PIRINÉUS - RESPIRAR!

Acto II - A SAUDADE



Ordesa vertical.


Estávamos cansados. Um dia para recuperar da ida e volta ao Circo de Perramó não foi suficiente. Os quadríceps ainda doíam, os gémeos também, mas a avidez de usar todo o pouco tempo disponível para escalar, fugir para lugares bonitos era maior que todas as dores do corpo, essas mesmas que se instalaram para mascarar a dor que se instalou na minha alma. Dias antes perdi a minha avó Zita, com os seus 101 anos. Segura de que olha agora por mim de uma forma diferente, decidi mostrar-lhe as paredes de Ordesa.
Dias antes, eu e o Paulo tínhamos falado em abrir uma via em Ordesa. Como ultimamente as escaladas tem sido escassas, a pouca rodagem parecia limitar os nossos desejos a uma parede já nossa conhecida, o Abismo de Carriata (vizinha do famoso Tozal del Mallo), onde em 2012 escalámos uma nova via. No entanto, desta vez, era a parede da Fraucata que cativava os nossos sentidos.


A imensa parede da Fraucata.


Cruzar a Fraucata era um sonho que vagueava nos nossos cérebros desde 2012. A parede intimidante, a menos concorrida, onde escaladores de renome, como Jesus Galvez e Christian Ravier deixaram traços ainda hoje pouco (ou nunca) repetidos. Essa mesma parede onde não nos sentiríamos confortáveis. “A Fraucata é a menos desejada das paredes de Ordesa. É austera, o sol chega tarde”, foi o que lemos no novo guia de Christian Ravier e Rémi Thivel. Essa frase exercia sobre nós um misto de medo e atracção.
De alguma forma, entre as saudades da Zita e a melancolia perdeu-se o medo, e deixámo-nos levar pelo sonho. Porque a Zita sempre me fez sentir o coração leve, livre, achei que tinha chegado a altura de enfrentar a Fraucata sem pensar demasiado. Libertar-me, tentar alcançar um esboço de alegria. Senti-me livre do medo de falhar, de não ser aceite por esta parede… “Que se lixe o que acontecer!” Neste enredo confuso, abrimos o livro de Ravier e escolhemos um espaço no papel sem linhas desenhadas. Após um dia de descanso acercámo-nos da parede.


A terminar o segundo lance de escalada. 


Cerca de 300m de calcário vertical olhavam-nos de soslaio. Buscámos o traçado que nos pareceu mais fácil. Brincávamos tentando adivinhar as dificuldades. “Em busca do V grau!” Porque não tínhamos muita corda para fixar, a aventura teria de se desenrolar em tão só dois dias. A rapidez seria algo imperioso para terminar a via no segundo dia. No primeiro não poderíamos fixar mais que 60 a 80m (80 metros... com truque!), no segundo, ou chegávamos au topo ou regressaríamos de mãos a abanar. De qualquer modo, decidimos que aquela via sairia de uma forma ou de outra. Tínhamos tempo, não íamos desistir!
No dia 26 de Agosto, perto da 9 da manhã, apanhamos o autocarro que nos depositou no parque de estacionamento de Ordesa. Uma hora e quarenta depois estávamos à sombra dessa enorme parede. A Fraucata parecia olhar-nos com um sorriso traquinas.


O Paulo inicia o terceiro lance da nova via.


Após um primeiro lance de trepada (70m, um passo de IV grau, o resto: jardinagem), atámos as cordas a um pinheirito isolado e, olhando para cima, descobrimos um lance de aparência… fácil.
- Queres ir tu? Não parece difícil! – propõe o Paulo.
- Estou cansada. Não estou muito motivada. Olha vai tu!
... passada uma hora e cerca de quarenta metros escalados juntámo-nos novamente, na nova reunião.
- Chiça! V grau? Achas mesmo? A mim custou-me! – declarei decepcionada.
- Eu não disse que era V grau! – retorquiu o Paulo.
Tínhamos acabado de escalar o lance que nos parecera mais fácil, um 6b! O nosso “em busca do V grau” desvaneceu-se e mentalmente preparámo-nos para uma via mais dura, bem mais dura.


Todos os lances são mais duros que o esperado.


No quarto lance. A aventura continua.


O dia de escalada parecia estar quase a terminar, pois a corda estática não dava para muito mais, mas lá nos lembrámos que poderíamos fixar uns 30m extra usando uma das cordas duplas (não aconselhável, mas lá o fizemos!). Assim, o primeiro dia rendeu-nos uns bons 80m de escalada.
Como em corpo não recuperado uma nova dose física não ajuda, achámos por bem descansar um dia para regressar em força.


Finalmente um respiro! O quinto largo "aligeira" um pouco.



"Mmm, como será o resto?"


No dia do regresso, despertámos às 4h30 e às seis da manhã apanhámos o primeiro autocarro que parte para o estacionamento de Ordesa.
Antes do nascer do Sol, escondemos uma mochila no meio de um denso matagal no início do caminho que nos levaria à parede. No interior dessa mochila colocámos algum equipamento de pernoita, caso não conseguíssemos apanhar o último autocarro para Torla, o das 22h00. Mentalmente, preparámo-nos para um dia épico.
Algures pelas 8h30 estávamos a tomar o pequeno-almoço, constituído por uma dose de 80 metros de jumar!


Uma reunião típica.


Num momento de travessia nervosa para aceder ao último muro da via.


Escalámos e escalamos e pelas 14h00 tínhamos já atingido uma pequena plataforma que corta a parede. Por onde ir?
Sem grandes hesitações, decidimos seguir a linha que parecia mais fácil – agora já sabíamos que a aparência de facilidade era aqui uma mera ilusão.
- Merda! Está aqui um piton! Este diedro já foi escalado! – a voz do Paulo denotava frustração.
- Queres tentar mais à esquerda? Ainda temos tempo! – berrei com convicção.
Estávamos determinados a abrir uma linha que fosse só nossa. O Paulo destrepou um pouco e escalou em direcção ao diedro da esquerda, aquele que queríamos evitar por nos parecer mais difícil. A vantagem é que terminaríamos a via por uma saída mais elegante.


Escalada exigente já no último muro da via.


Dois lances de escalada levaram-nos ao diedro final. Seria o último lance, lógico e inevitável.
- Merda! Um piton! – silêncio…
- Já andaram por aqui! Epá, agora vou seguir!
Esse último lance seria comum com outra via misteriosa que provinha de qualquer um dos múltiplos diedros ou fissuras. O guia não indicava qualquer via por ali. Foram os únicos vestígios de outros escaladores que encontrámos no nosso alinhamento.


Perto do final. Trezentos metros de escalada debaixo dos pés.


Após sofrer mais uns 35m de escalada, penduranço, “A1zanço” e tal, algures pelas 17h30 estávamos finalmente os dois no topo da Fraucata. Do outro lado do vale, olhávamos a parede do “Gallinero” com orgulho, felizes por ter cruzado toda a “Fraucata austera”, felizes por quase terminar o sonho (faltava a descida) que nos perseguia desde 2012. Felizes por deixarmos o nosso medo 345m mais abaixo. Deleitámo-nos com a paisagem, a vista era imensa, no horizonte de cristas de montanhas reconhecia-se o Taillón, o Cilindro de Marboré, a Falsa Brecha de Rolando, nomes famosos...


"Yeeeeaaaaahhhhhhhh! The end!... opss, ainda não! Falta a descida!"


Vistas largas para o belíssimo circo de Cotatuero. Descida esgotante mas, muito compensadora.


Faltava-nos agora regressar ao ponto de partida. Com alguma sorte e celeridade talvez conseguíssemos evitar dormir por ali. Agora o sonho mais apetecido era jantar num dos restaurantes de Torla. O guia de Ordesa indicava algo como 1h30 para descer... “Hummmm” - estranhámos e contámos no nosso intimo com 2h00. Fizemos contas para apanhar o “bus” das 20h00.
Andámos, andámos, e andámos muito, e em jeito de recompensa a natureza decidiu oferecer-nos a visão de enormes flores Edelweiss, rebecos que corriam pelo vale, marmotas empoleiradas em pequenas pedras. Andámos e corremos, porque o tempo passava e sentíamo-nos cada vez mais longe daquele jantar apetecido.
Perto de três horas depois, a esperança era agora apanhar o autocarro das 21h00.
Novamente no escuro, os arbustos que serviam de esconderijo para a mochila do depósito pareciam ter desaparecido! Os minutos passavam, víamos o jantar cada vez mais longe. Pouco depois os arbustos familiares apareceram. Com o pouco tempo que nos restava, colocámos a mochila às costas atabalhoadamente e corremos para o autocarro, ainda com o arnês à cintura e os friends a tilintar.
Eram 20h55 quando saltámos para dentro do autocarro. Nessa noite, os nossos liofilizados transformaram-se em dois excelentes “menus” e a água de rio ganhou o sabor de um vinho branco fresquinho nascido na mesma região da Fraucata, nos Pirineus!


Daniela Teixeira


A seguir: PIRINÉUS - RESPIRAR! Acto III


Topo da via "SAUDADE":







terça-feira, setembro 20, 2016

Pirinéus - Acto I

PIRINÉUS - RESPIRAR!

Acto I - Circo de Perramó



Vista do Circo de Perramó e Vale de Estós, desde o cimo da via "Momentos".


Ordesa! Sinónimo de vertigem, de aéreo, de lastras imensas empilhadas formando o verdadeiro arquétipo de lego para gigantes.
A visão do mundo vertical do Parque Nacional de Ordesa revela receios ocultos mas também sentimentos profundos. Não é fácil evitar as exclamações sonoras em cada recanto do caminho, em cada brecha na folhagem da floresta quando, como uma aparição fantasmagórica, surgem as muralhas avermelhadas pela luz quente do final da tarde.
Já em 2012 a Daniela e eu tivemos a oportunidade de explorar uma nova via nestas paredes e, não sei bem, mas a distância temporal talvez tenha entorpecido a memória do medo visceral provocado pela verticalidade perturbadora da escalada em Ordesa. Por isso… voltámos!


A grandiosa parede do Galliñero no Parque Nacional de Ordesa.


Nos últimos tempos, por razões diversas e uma perda familiar imensa, os nossos níveis de ansiedade aumentaram muito. Resolvemos escapar para as montanhas. Ansiávamos pelas grandes paisagens, pela natureza selvagem, pela pureza crua dos montes, pela frescura dos bosques. Ansiávamos pela indiferença dos elementos. Uma indiferença sem questões, sem juízos, no fundo, acolhedora.

Pirinéus: a mais bonita cordilheira do mundo.
Duas semanas: pouco tempo mas, uma lufada de ar. AR!

Ordesa consistia no objectivo principal mas, queríamos em primeiro lugar subir a um lugar isolado, deserto e bonito. Lembrámo-nos de um vale espectacular que havíamos visitado há uns anos. Mas seria necessário andar. Andar e carregar!


As muito desejadas sombras do bosque num dia de caminhada dura sob um calor intenso!


Com as mochilas apetrechadas com tudo, incluindo equipamento de escalada suficiente para abrir uma nova via, iniciámos a caminhada para o Vale de Estós. Hora e meia depois, saímos do caminho principal e embicámos para o trilho da esquerda, empinado e sinuoso em direcção ao Circo de Perramó. 
O calor acompanhou toda a jornada, apenas aliviada pela visão sublime das paisagens de aspecto “Canadiano”, das montanhas, dos bosques e das lagoas de água translúcida.


Uma visão do paraíso.


A Daniela já mais animada: "Estamos quase!"


Uma penosa subida de três horas e meia depositou-nos num dos lagos superiores do Vale. Um mergulho rápido nas águas gélidas para lavar os litros de suor perdido precedeu a montagem rápida da pequena tenda. À nossa direita, a Torre de Perramó evidenciava-se. Em 2012 Escalámos por ali uma nova via. Já naquela altura pensámos que os 75 metros de escalada não justificavam a aproximação dura e demorada. Desta vez já se adivinhava uma repetição desse cálculo matemático. Mas quem disse que a montanha é feita de cálculos matemáticos? Nunca é, e naquele lugar, para prova-lo bastava levantar o olhar e apreciar o horizonte num giro lento de 360 graus.
Delimitando a cumeada do vale que acabáramos de subir, avistava-se o pico Perdiguero. Das suas vertentes escorregavam prados de um verde intenso até desaparecerem escondidos por um bosque magnifico. As pequenas lagoas encontravam-se salpicadas por ali e acolá. Em sentido oposto, ali estava o cordão de granito formado pelas Tucas de Ixeya, Agulha del Chinebró e Tuca de Corbets.



O nosso pequeno refúgio isolado do resto do mundo.


Estas paredes surgiam como uma carta aberta, disponível para colmatar os nossos desejos de escalada. É um lugar bastante remoto e bastava escolher uma parede ou um esporão ao azar e a probabilidade de se abrir um novo itinerário era grande.
Ligámos o fogão para aquecer a água para a refeição. Não fossem os mosquitos, a perfeição teria ali uma verdadeira expressão física. No entanto, o tão desejado isolamento, esse, tínhamo-lo encontrado. 
Às duas e trinta da madrugada a fisiologia obrigou a uma saída da tenda. De olhos entorpecidos admirámos o céu limpo e a via láctea em versão total. A ténue luz combinada das estrelas era suficiente para iluminar a muralha de granito e a lagoa que agora revelava uma tez negra. Paz e silêncio absoluto. PAZ! Ficámos ali um bocado a olhar o infinito, a admirar o momento. MOMENTOS!


A preparar o material para iniciar uma nova via na face norte da Tuca de Xinebró... num lugar descrito pela Daniela como: "Onde o Diabo perdeu as botas!"


Na Tuca de Xinebró (de raríssima visita), a uma hora do “campo base”, inaugurámos uma nova via. Cerca de 150 metros de granito, com a cereja no topo do bolo situada no segundo lance, um diedro estético e belo.

A Daniela a emergir do primeiro lance fácil.


A iniciar o estético segundo lance da escalada.


Atipicamente, a nossa via não terminou no cume da torre mas sim no cimo de uma crista. Para cima, ficou a faltar uma secção de parede tombada de trepada fácil. “Parece demasiado tombado mas, não para descer!” – considerámos. Decidimos não continuar para não ter que abandonar muito material nas inevitáveis instalações de rapel. O chip da poupança prevaleceu à lógica alpinística.
Visto a frio, caminhámos umas quatro horas para escalar uma via de sabor incompleto e com um único lance de boa qualidade. Errado! Caminhámos quatro horas para viver e respirar e ainda se aproveitou para subir um pedaço de muralha com vistas largas.


As vistas compensaram todo o esforço.


“Como será isto no pino do Inverno?” – questionava-se a Daniela, com os olhos metidos nas sombrias paredes vizinhas, voltadas a norte. Naquele momento, nasceu uma nova ideia. Talvez um novo sonho…
Quase esquecemos que após uma subida daquele calibre, inevitavelmente, viria uma descida igualmente extenuante. Os joelhos e os tornozelos - especialmente os meus tornozelos, já bastante desgastados por percalços e acidentes vários, ao longo de uma vida de aventuras - viriam a queixar-se lá em baixo, na civilização. O dia terminou com uma tareia magnífica. Algo que por aquelas bandas é conhecido como “Una menuda paliza!” 
Que mais se podia desejar?


Entretanto, Ordesa sussurrava… 


Paulo Roxo


A seguir: PIRINÉUS - RESPIRAR! Acto II


Topo da via "Momentos":





terça-feira, abril 12, 2016

Inverno 2016

INVERNO 2016!



O Inverno parecia não querer chegar. Seria mais um daqueles anos sem neve na Serra da Estrela?
A partir de meados de Fevereiro, finalmente, uma massa de ar frio surgiu, empurrada pelos ventos Siberianos. Pouco a pouco a neve começou a cair e o gelo a formar-se e - para nós, mais interessante - as paredes começaram a apresentar boas condições para a mais masoquista e (paradoxalmente) fascinante actividade de montanha: a escalada mista.


Sector PowerMix e Placas Superiores em excelentes condições mistas.


Seria a minha primeira experiência de escalada mista pós-acidente, por isso não sabia muito bem como se iria comportar o meu corpo. No entanto, o entusiasmo reinava.
Convinha aquecer os motores. O clássico sector “Couves” serviu perfeitamente o propósito e rapidamente escalámos todas as cascatas de gelo disponíveis. Após tanto tempo, sabia-nos bem retornar aos piolets.


A "aquecer os motores" no sector das Couves.


Desde o estacionamento da Curva do Cântaro, avistámos o sector das “Placas superiores”. Ali estava uma linha lógica à espera da primeira investida. Após breve observação chegámos à conclusão que o suposto segundo lance possuía potencial para uma dura luta. Uma fissura extra-prumada cortava a parede em diagonal. O cenário intimidava um pouco e não convinha iniciar a época com algo demasiado duro.
Desviamo-nos um pouco para a direita da parede e descobrimos um bonito fio de gelo que se erguia em direcção a uma grande chaminé desconhecida. Parecia uma via mais fácil e adequada a uma “primeira”.
Trinta metros moderados de escalada em gelo e mista colocaram-nos na base da grande chaminé. A lúgubre fissura encontrava-se desprovida de neve ou gelo. Seria uma ascensão em rocha pura. No entanto, as grandes lastras entaladas pareciam possibilitar uma escalada fácil.


Primeiro lance da "Mini-micro".


Antes de saltar para o topo da nova via a Daniela ainda se “divertiu” com um último grande bloco de granito que balançava com o seu peso. Era um bloco do tipo: “sempre-em-pé”.
A “Mini-Micro”, possui 45 metros e dois lances com as dificuldades concentradas na “Goulotte” do primeiro lance. M5 no primeiro largo e M4+ no segundo.


Na saída da "Mini-micro".


Desde o topo da primeira via mista da temporada, dirigimo-nos ao sector “PowerMix” para ver se ainda dava para escalar qualquer outra coisa.
Boquiabertos observámos a impressionante parede vertical do “PowerMix”. “Uau! Isto está com um aspecto perfeito!” Toda a parede encontrava-se branca, coberta com a devida “colagem” de gelo e neve. Uma vez mais confirmámos o potencial deste local para aventuras mistas mais exigentes e atléticas. “Onde anda a nova geração? Isto é mesmo a parede do futuro!”


A Daniela espreita o futuro!


Com o dia a terminar – pelo menos o “nosso” dia, pois decidimos adoptar uma postura mais tranquila de “deitar cedo e tarde erguer!” – resolvemos deixar para a jornada seguinte uma tentativa mais afoita no “PowerMix”. No entanto, realizámos ainda uma modesta primeira ascensão a uma pequena linha de “goulotte”, situada na saída do sector.


Uma via divertida.


A “Piqueroxinha” segue uma estreita linha vertical atractiva que encontrámos preenchida por gelo de excelente qualidade. Dois friends em fissura lateral resolveram o assunto, culminando 15 divertidos metros de via mista.



A terminar a "Piqueroxinha".


Na manhã seguinte, tal como planeado, retornámos ao “PowerMix” e inspirados pela visão do dia anterior, encordámo-nos na base de uma via prestes a tornar-se em uma das mais bonitas que tivemos a sorte de escalar nesta temporada.
Há uns bons anos, abrimos uma via no sector “PowerMix” que chamámos “A anatomia da tracção”. Agora, o entusiasmo pela exploração levou-nos a uma linha estética e rectilínea situada à direita da “Anatomia…”. Desfrutámos de um primeiro lance de escalada mista, com tufos de erva devidamente congelados, o que permitiu uma “sensação” de tracção semelhante ao gelo puro. As possibilidades para proteger abundavam e, pouco depois, juntámo-nos numa reunião aérea, composta por duas peças “à bomba!”, colocadas numa generosa fissura fina. 



Após um primeiro lance divertido a festa continua!


Os tufos congelados, tal qual o gelo!


O busílis da questão estava no segundo lance. Com algum esforço e recorrendo a bons gancheios, lá se ultrapassou com dignidade uma secção vertical de escalada e um pequeno tecto que obrigou a um entalamento a meio corpo, digno dos melhores “off-widhts” da serra. Após mais alguns metros sofridos, seguiu-se uma “goulotte” mais fácil e relaxante. De braços cansados mas muito satisfeitos, ambos concordámos que a via era excelente!
Sentimos que “Anatomia do antebraço” seria um nome adequado para esta linha com cerca de 50 metros divididos por dois lances, e dificuldades que atingem M6+ no segundo lance.



Dois momentos no segundo lance duro da "Anatomia do antebraço".


Nove dias depois bramíamos de novo os piolets em gelo vertical e técnico. Mas por pouco tempo, pois os poucos metros de escalada em gelo conduziam a uma chaminé larga que obrigava a trocar os movimentos de “martelo” por gancheios mais delicados em fissuras mais ou menos óbvias. O número de boas protecções mantinha-se bastante razoável e isso permitia à mente aventurar-se um pouco mais nos gestos atléticos da escalada. O que saiu nesse dia foi uma fantástica via inaugurada na face oeste do Cântaro Magro, mesmo à esquerda da belíssima “Pepi te quiero”. O primeiro lance da nova “Tentativa e erro” inicia por uma cascata muito evidente que se forma numa chaminé larga (WI5), continuando em escalada mista até terminar com alguns passos de “dry-tooling” bem verticais (M6+). 


A entrada da via em gelo vertical! Excelente!


A terminar o crux duro da via.


A Daniela metida no crux da via.


O segundo lance transpõe uma fissura fina que corta uma placa vertical. A fissura, que se prolonga pelos 10 metros iniciais, permite bons gancheios e um saborear da escalada mista na sua essência (M5+). Após este segundo lance muito longo (quase 60 metros) pode-se unir esta via com a “Scottish Way” ou, em caso de saciedade (foi o nosso caso), é possível “escapar” para a direita, para a Curva do Cântaro em direcção a um merecido petisco de comemoração.


Um segundo lance técnico, com bons gancheios e protecções.


O primeiro dia de Março viu-nos metidos numa profunda chaminé congelada do sector PowerMix. Trata-se de uma das linhas mais óbvias da parede… e também uma das mais impressionantes. Como nos sentíamos inspirados e confiantes devido aos sucessos do fim-de-semana anterior, não hesitámos em tentar a sorte. O que se seguiu foi uma pequena batalha que envolveu gancheios aleatórios, felizmente bem protegidos (acreditava) e vários apertos de corpo inteiro, alguns penosos, outros mais confortáveis, que se revelaram os piores, porque faziam tardar a decisão de comprometimento com as difíceis passagens seguintes. O pouco gelo existente estava constituído por placas muito finas a revestirem as paredes da chaminé mas, felizmente, serviam bem o seu propósito de permitir uma escassa ajuda de pés (crampons!).


Um festival de gancheios aleatórios e protecções comestíveis. Todo um desfrute!


E claro... metido na chaminé profunda!


Algumas horas depois festejámos a nova “conquista” no topo do sector. A “Chaminix” (M6+) possui “apenas” trinta metros que bastaram para preencher o espirito com uma doce sensação de satisfação. De novo, sentíamos o corpo agradavelmente dorido. “O dia está feito!” Exclamámos em uníssono.



Dois momentos da Daniela a escalar a "Chaminix".



"Yuuupiiee! Que belo dia!"


Entretanto, vários dias de temperaturas muito estáveis a oscilarem ligeiramente, sem se desviarem muito do zero, criaram as condições ideais para a formação de gelo de qualidade. Quase todas as cascatas habituais deram o ar de sua graça. Uma voltinha de reconhecimento e… “Uau!” Ali estava, como um fantasma materializado, a sempre magnífica e desejada “Cascata do Inferno”. Mas, uma vez na sua base, uma observação primária parecia antever uma camada de gelo demasiado fina para permitir a adequada protecção utilizando parafusos de gelo. No entanto, a vizinha “Grândola Vila Morena” parecia “gorda” e convidativa. “Vamos!” O que se seguiu foi uma repetição de uma via esplêndida, sem dúvida uma das melhores (senão A melhor!) da Serra da Estrela. 


"Será que isto vai sair em livre?!"...


A "Grândola..." é um velho projecto de meados doas anos 90 mas, só foi aberta em 2013. Essa escalada obrigou à colocação de vários expansivos para vencer uma placa lisa e um tecto desafiante. Desta vez encontrámos a placa coberta de gelo de qualidade e a maioria das plaquetes encontravam-se inacessíveis. O problema foi resolvido utilizando alguns parafusos curtos e a exigente secção até ao tecto foi realizada em escalada livre. “Espectacular!” Eu alucinava com a perspectiva de resolver aquele “problema” sem recorrer à escalada artificial. 


... "Será que isto vai sair em livre?!"...



... "Será que isto vai sair em livre?!"


No entanto, a passagem em travessia por baixo do grande tecto, que permite alcançar a coluna de gelo suspenso, cortou o meu entusiasmo. Sem capacidade física para resolver aquilo, não teria mais remédio que agarrar-me às últimas plaquetes, recorrendo ao A0. A passagem atlética para cavalgar a coluna de gelo não foi tão difícil como a tinha imaginado. Na verdade, até se fez sem dificuldades de maior. 


A coluna, muito mais fácil que o previsto.



Pouco depois, gritava de jubilo, já suspenso na reunião equipada com dois pernes. Uma hora depois, a Daniela juntou-se a mim na reunião e, seguiram-se outros trinta e cinco metros de puro desfrute a escalar uma das melhores cascatas isoladas da Serra da Estrela. Reconfirmámos a qualidade do itinerário. Quanto a mim, sonho já com uma repetição das condições para o próximo ano por forma a poder realizar uma nova tentativa de escalar o primeiro lance da “Grândola Vila Morena” em livre integral.


A primeira reunião da "Grândola Vila Morena".


A Daniela a emergir do abismo, depois do tecto da "Grâmdola Vila Morena".



A bela cascata do segundo lance.


Confirmadas as condições perfeitas do gelo na “Grândola…”, não hesitámos em planear a escalada da “Cascata do Inferno” para o dia seguinte.
A “Cascata do Inferno” é um verdadeiro ícone da Serra da Estrela e a sua repetição será sempre objecto de desejo. Esta estética linha corresponde já a um ritual de passagem (ou de sonho) para qualquer escalador de gelo Lusitano. Encontrar esta via em boas condições é uma dádiva que não deve ser desperdiçada. Após dois lances de perfeição, tanto ao nível da escalada como ao nível das protecções, voltámos a abraçar-nos no topo desta beleza efémera com 70 metros de água congelada. Uma vez mais, sentíamos o espírito tranquilo e saciado… por alguns dias!




Momentos durante a escalada da "Cascata do Inferno - Directa"



Os Wallyes metidos na "Cascata do Inferno - Directa". A foto é de Nuno Paiva. 


Entrada a Primavera, julgámos que a época tinha terminado. A custo – porque a escalada mista é aditiva – esvaziámos as mochilas e voltámos a pendurar os piolets, crampons e parafusos de gelo, em jeito de despedida até à época seguinte.
A natureza resolveu pregar-nos uma partida e eis que surgiram alguns dias de temperaturas baixas e previsão de neve nos pontos mais altos da serra. Ou isso julgámos!
No dia 2 de Abril, voltámos a calçar as botas de montanha e a equipar as mochilas com as ferramentas do costume. Alimentávamos a esperança de realizar uma última abertura “Invernal”.
Pela primeira vez este ano, estacionámos a carrinha (Berlingota, com carinho) no eternamente horrível e transitado cume da Serra da Estrela e dirigimo-nos ao Covão do Ferro com o intuito de nos metermos em mais um festival de gancheios e aventuras mistas (quiçá místicas!).


Com um ar meio idiota de felicidade depois de algumas excelentes escaladas invernais.


As previsões apontavam para uma temperatura positiva mas, a rondar o zero. O que realmente encontrámos foi uma temperatura demasiado afastada do zero, no sentido do calor! Ou seja… tentar cravar os piolets nos tufos habituais revelou-se uma manobra de pouca utilidade. Sem apresentarem o tão desejado grau de congelação, os piolets apenas serviam para rasgar a erva. Quanto ao pouco gelo existente, estava fora de questão porque ao mais ligeiro toque de piolet ou crampon desfazia-se em milhares de pedaços, como peças de cristal. Recorrendo unicamente aos gancheios em fissuras rochosas e a um repertório de técnicas com a capacidade para redefinir todo o conceito de “pontos de apoio” normalmente associados à escalada, lá fomos subindo através de uma linha bem exigente e difícil. Nas devidas condições de frio esta era uma via possuía um excelente potencial para se tornar numa excelente proposta de escalada mista. Nas lamentáveis condições encontradas, terminar a escalada sem sucumbir ao medo, à voz da razão e ao bom senso, revelou-se um verdadeiro exercício de vontade e teimosia. No entanto, a linha em si é boa e merece uma repetição, sobretudo para tentar encadear todos os movimentos que foram realizados em estilo “trapalhão”... e A0!


O primeiro lance do dia.


As penúrias de justificação duvidosa inspiraram ao nome. “A conquista dos inúteis” possui cerca de 125 metros distribuídos por quatro lances. As maiores dificuldades estão situadas nos dois primeiros lances. O primeiro largo (M6) foi encadeado com muito custo, sobretudo na passagem de uma chaminé absolutamente desagradável, impossível de atravessar com uma mochila nas costas. O segundo lance exige muito esforço e capacidade de proteger convenientemente ao mesmo tempo que se realizam potentes bloqueios de braço em gancheios “mais ou menos” bons (para mim foi mais “penduranço” ao bom estilo… estilo?!). No entanto, os passos foram ensaiados e a proposta de dificuldade para este largo pode bem estar no M7+, com a interrogante na questão fundamental: “E se as condições estivessem boas?”


As fissuras são boas para proteger e ganchear mas... a pilha faltou!


Um mega lance sem história (M3) com 65 metros (ensamble) permitiu aceder ao último largo divertido, constituído por uma fissura larga diagonal para a direita (M4+), que obrigou a um “elegante” reptanço inicial.


Em escalada mista vale (quase) tudo, passos de joelho incluídos. 


Tufo-tracção!


Feitas as contas e em jeito de conclusão final, para nós, apesar de curta, a época invernal na Serra da Estrela acabou por ser bastante proveitosa.

Venha lá então esse Verão!


 The End


Paulo Roxo


Os croquis por ordem cronológica:


1. Mini-Micro. 45m, M5, M4+
2. Piqueroxinha. 15m, WI2+
3. Anatomia do antebraço. 50m, M5+, M6+
4. Tentativa e erro. 85m, WI5/M6+, M5+
5. Chaminix. 30m, M6+
6. A conquista dos inúteis. 125m, M6, M7+(?), M3, M4+