terça-feira, abril 12, 2016

Inverno 2016

INVERNO 2016!



O Inverno parecia não querer chegar. Seria mais um daqueles anos sem neve na Serra da Estrela?
A partir de meados de Fevereiro, finalmente, uma massa de ar frio surgiu, empurrada pelos ventos Siberianos. Pouco a pouco a neve começou a cair e o gelo a formar-se e - para nós, mais interessante - as paredes começaram a apresentar boas condições para a mais masoquista e (paradoxalmente) fascinante actividade de montanha: a escalada mista.


Sector PowerMix e Placas Superiores em excelentes condições mistas.


Seria a minha primeira experiência de escalada mista pós-acidente, por isso não sabia muito bem como se iria comportar o meu corpo. No entanto, o entusiasmo reinava.
Convinha aquecer os motores. O clássico sector “Couves” serviu perfeitamente o propósito e rapidamente escalámos todas as cascatas de gelo disponíveis. Após tanto tempo, sabia-nos bem retornar aos piolets.


A "aquecer os motores" no sector das Couves.


Desde o estacionamento da Curva do Cântaro, avistámos o sector das “Placas superiores”. Ali estava uma linha lógica à espera da primeira investida. Após breve observação chegámos à conclusão que o suposto segundo lance possuía potencial para uma dura luta. Uma fissura extra-prumada cortava a parede em diagonal. O cenário intimidava um pouco e não convinha iniciar a época com algo demasiado duro.
Desviamo-nos um pouco para a direita da parede e descobrimos um bonito fio de gelo que se erguia em direcção a uma grande chaminé desconhecida. Parecia uma via mais fácil e adequada a uma “primeira”.
Trinta metros moderados de escalada em gelo e mista colocaram-nos na base da grande chaminé. A lúgubre fissura encontrava-se desprovida de neve ou gelo. Seria uma ascensão em rocha pura. No entanto, as grandes lastras entaladas pareciam possibilitar uma escalada fácil.


Primeiro lance da "Mini-micro".


Antes de saltar para o topo da nova via a Daniela ainda se “divertiu” com um último grande bloco de granito que balançava com o seu peso. Era um bloco do tipo: “sempre-em-pé”.
A “Mini-Micro”, possui 45 metros e dois lances com as dificuldades concentradas na “Goulotte” do primeiro lance. M5 no primeiro largo e M4+ no segundo.


Na saída da "Mini-micro".


Desde o topo da primeira via mista da temporada, dirigimo-nos ao sector “PowerMix” para ver se ainda dava para escalar qualquer outra coisa.
Boquiabertos observámos a impressionante parede vertical do “PowerMix”. “Uau! Isto está com um aspecto perfeito!” Toda a parede encontrava-se branca, coberta com a devida “colagem” de gelo e neve. Uma vez mais confirmámos o potencial deste local para aventuras mistas mais exigentes e atléticas. “Onde anda a nova geração? Isto é mesmo a parede do futuro!”


A Daniela espreita o futuro!


Com o dia a terminar – pelo menos o “nosso” dia, pois decidimos adoptar uma postura mais tranquila de “deitar cedo e tarde erguer!” – resolvemos deixar para a jornada seguinte uma tentativa mais afoita no “PowerMix”. No entanto, realizámos ainda uma modesta primeira ascensão a uma pequena linha de “goulotte”, situada na saída do sector.


Uma via divertida.


A “Piqueroxinha” segue uma estreita linha vertical atractiva que encontrámos preenchida por gelo de excelente qualidade. Dois friends em fissura lateral resolveram o assunto, culminando 15 divertidos metros de via mista.



A terminar a "Piqueroxinha".


Na manhã seguinte, tal como planeado, retornámos ao “PowerMix” e inspirados pela visão do dia anterior, encordámo-nos na base de uma via prestes a tornar-se em uma das mais bonitas que tivemos a sorte de escalar nesta temporada.
Há uns bons anos, abrimos uma via no sector “PowerMix” que chamámos “A anatomia da tracção”. Agora, o entusiasmo pela exploração levou-nos a uma linha estética e rectilínea situada à direita da “Anatomia…”. Desfrutámos de um primeiro lance de escalada mista, com tufos de erva devidamente congelados, o que permitiu uma “sensação” de tracção semelhante ao gelo puro. As possibilidades para proteger abundavam e, pouco depois, juntámo-nos numa reunião aérea, composta por duas peças “à bomba!”, colocadas numa generosa fissura fina. 



Após um primeiro lance divertido a festa continua!


Os tufos congelados, tal qual o gelo!


O busílis da questão estava no segundo lance. Com algum esforço e recorrendo a bons gancheios, lá se ultrapassou com dignidade uma secção vertical de escalada e um pequeno tecto que obrigou a um entalamento a meio corpo, digno dos melhores “off-widhts” da serra. Após mais alguns metros sofridos, seguiu-se uma “goulotte” mais fácil e relaxante. De braços cansados mas muito satisfeitos, ambos concordámos que a via era excelente!
Sentimos que “Anatomia do antebraço” seria um nome adequado para esta linha com cerca de 50 metros divididos por dois lances, e dificuldades que atingem M6+ no segundo lance.



Dois momentos no segundo lance duro da "Anatomia do antebraço".


Nove dias depois bramíamos de novo os piolets em gelo vertical e técnico. Mas por pouco tempo, pois os poucos metros de escalada em gelo conduziam a uma chaminé larga que obrigava a trocar os movimentos de “martelo” por gancheios mais delicados em fissuras mais ou menos óbvias. O número de boas protecções mantinha-se bastante razoável e isso permitia à mente aventurar-se um pouco mais nos gestos atléticos da escalada. O que saiu nesse dia foi uma fantástica via inaugurada na face oeste do Cântaro Magro, mesmo à esquerda da belíssima “Pepi te quiero”. O primeiro lance da nova “Tentativa e erro” inicia por uma cascata muito evidente que se forma numa chaminé larga (WI5), continuando em escalada mista até terminar com alguns passos de “dry-tooling” bem verticais (M6+). 


A entrada da via em gelo vertical! Excelente!


A terminar o crux duro da via.


A Daniela metida no crux da via.


O segundo lance transpõe uma fissura fina que corta uma placa vertical. A fissura, que se prolonga pelos 10 metros iniciais, permite bons gancheios e um saborear da escalada mista na sua essência (M5+). Após este segundo lance muito longo (quase 60 metros) pode-se unir esta via com a “Scottish Way” ou, em caso de saciedade (foi o nosso caso), é possível “escapar” para a direita, para a Curva do Cântaro em direcção a um merecido petisco de comemoração.


Um segundo lance técnico, com bons gancheios e protecções.


O primeiro dia de Março viu-nos metidos numa profunda chaminé congelada do sector PowerMix. Trata-se de uma das linhas mais óbvias da parede… e também uma das mais impressionantes. Como nos sentíamos inspirados e confiantes devido aos sucessos do fim-de-semana anterior, não hesitámos em tentar a sorte. O que se seguiu foi uma pequena batalha que envolveu gancheios aleatórios, felizmente bem protegidos (acreditava) e vários apertos de corpo inteiro, alguns penosos, outros mais confortáveis, que se revelaram os piores, porque faziam tardar a decisão de comprometimento com as difíceis passagens seguintes. O pouco gelo existente estava constituído por placas muito finas a revestirem as paredes da chaminé mas, felizmente, serviam bem o seu propósito de permitir uma escassa ajuda de pés (crampons!).


Um festival de gancheios aleatórios e protecções comestíveis. Todo um desfrute!


E claro... metido na chaminé profunda!


Algumas horas depois festejámos a nova “conquista” no topo do sector. A “Chaminix” (M6+) possui “apenas” trinta metros que bastaram para preencher o espirito com uma doce sensação de satisfação. De novo, sentíamos o corpo agradavelmente dorido. “O dia está feito!” Exclamámos em uníssono.



Dois momentos da Daniela a escalar a "Chaminix".



"Yuuupiiee! Que belo dia!"


Entretanto, vários dias de temperaturas muito estáveis a oscilarem ligeiramente, sem se desviarem muito do zero, criaram as condições ideais para a formação de gelo de qualidade. Quase todas as cascatas habituais deram o ar de sua graça. Uma voltinha de reconhecimento e… “Uau!” Ali estava, como um fantasma materializado, a sempre magnífica e desejada “Cascata do Inferno”. Mas, uma vez na sua base, uma observação primária parecia antever uma camada de gelo demasiado fina para permitir a adequada protecção utilizando parafusos de gelo. No entanto, a vizinha “Grândola Vila Morena” parecia “gorda” e convidativa. “Vamos!” O que se seguiu foi uma repetição de uma via esplêndida, sem dúvida uma das melhores (senão A melhor!) da Serra da Estrela. 


"Será que isto vai sair em livre?!"...


A "Grândola..." é um velho projecto de meados doas anos 90 mas, só foi aberta em 2013. Essa escalada obrigou à colocação de vários expansivos para vencer uma placa lisa e um tecto desafiante. Desta vez encontrámos a placa coberta de gelo de qualidade e a maioria das plaquetes encontravam-se inacessíveis. O problema foi resolvido utilizando alguns parafusos curtos e a exigente secção até ao tecto foi realizada em escalada livre. “Espectacular!” Eu alucinava com a perspectiva de resolver aquele “problema” sem recorrer à escalada artificial. 


... "Será que isto vai sair em livre?!"...



... "Será que isto vai sair em livre?!"


No entanto, a passagem em travessia por baixo do grande tecto, que permite alcançar a coluna de gelo suspenso, cortou o meu entusiasmo. Sem capacidade física para resolver aquilo, não teria mais remédio que agarrar-me às últimas plaquetes, recorrendo ao A0. A passagem atlética para cavalgar a coluna de gelo não foi tão difícil como a tinha imaginado. Na verdade, até se fez sem dificuldades de maior. 


A coluna, muito mais fácil que o previsto.



Pouco depois, gritava de jubilo, já suspenso na reunião equipada com dois pernes. Uma hora depois, a Daniela juntou-se a mim na reunião e, seguiram-se outros trinta e cinco metros de puro desfrute a escalar uma das melhores cascatas isoladas da Serra da Estrela. Reconfirmámos a qualidade do itinerário. Quanto a mim, sonho já com uma repetição das condições para o próximo ano por forma a poder realizar uma nova tentativa de escalar o primeiro lance da “Grândola Vila Morena” em livre integral.


A primeira reunião da "Grândola Vila Morena".


A Daniela a emergir do abismo, depois do tecto da "Grâmdola Vila Morena".



A bela cascata do segundo lance.


Confirmadas as condições perfeitas do gelo na “Grândola…”, não hesitámos em planear a escalada da “Cascata do Inferno” para o dia seguinte.
A “Cascata do Inferno” é um verdadeiro ícone da Serra da Estrela e a sua repetição será sempre objecto de desejo. Esta estética linha corresponde já a um ritual de passagem (ou de sonho) para qualquer escalador de gelo Lusitano. Encontrar esta via em boas condições é uma dádiva que não deve ser desperdiçada. Após dois lances de perfeição, tanto ao nível da escalada como ao nível das protecções, voltámos a abraçar-nos no topo desta beleza efémera com 70 metros de água congelada. Uma vez mais, sentíamos o espírito tranquilo e saciado… por alguns dias!




Momentos durante a escalada da "Cascata do Inferno - Directa"



Os Wallyes metidos na "Cascata do Inferno - Directa". A foto é de Nuno Paiva. 


Entrada a Primavera, julgámos que a época tinha terminado. A custo – porque a escalada mista é aditiva – esvaziámos as mochilas e voltámos a pendurar os piolets, crampons e parafusos de gelo, em jeito de despedida até à época seguinte.
A natureza resolveu pregar-nos uma partida e eis que surgiram alguns dias de temperaturas baixas e previsão de neve nos pontos mais altos da serra. Ou isso julgámos!
No dia 2 de Abril, voltámos a calçar as botas de montanha e a equipar as mochilas com as ferramentas do costume. Alimentávamos a esperança de realizar uma última abertura “Invernal”.
Pela primeira vez este ano, estacionámos a carrinha (Berlingota, com carinho) no eternamente horrível e transitado cume da Serra da Estrela e dirigimo-nos ao Covão do Ferro com o intuito de nos metermos em mais um festival de gancheios e aventuras mistas (quiçá místicas!).


Com um ar meio idiota de felicidade depois de algumas excelentes escaladas invernais.


As previsões apontavam para uma temperatura positiva mas, a rondar o zero. O que realmente encontrámos foi uma temperatura demasiado afastada do zero, no sentido do calor! Ou seja… tentar cravar os piolets nos tufos habituais revelou-se uma manobra de pouca utilidade. Sem apresentarem o tão desejado grau de congelação, os piolets apenas serviam para rasgar a erva. Quanto ao pouco gelo existente, estava fora de questão porque ao mais ligeiro toque de piolet ou crampon desfazia-se em milhares de pedaços, como peças de cristal. Recorrendo unicamente aos gancheios em fissuras rochosas e a um repertório de técnicas com a capacidade para redefinir todo o conceito de “pontos de apoio” normalmente associados à escalada, lá fomos subindo através de uma linha bem exigente e difícil. Nas devidas condições de frio esta era uma via possuía um excelente potencial para se tornar numa excelente proposta de escalada mista. Nas lamentáveis condições encontradas, terminar a escalada sem sucumbir ao medo, à voz da razão e ao bom senso, revelou-se um verdadeiro exercício de vontade e teimosia. No entanto, a linha em si é boa e merece uma repetição, sobretudo para tentar encadear todos os movimentos que foram realizados em estilo “trapalhão”... e A0!


O primeiro lance do dia.


As penúrias de justificação duvidosa inspiraram ao nome. “A conquista dos inúteis” possui cerca de 125 metros distribuídos por quatro lances. As maiores dificuldades estão situadas nos dois primeiros lances. O primeiro largo (M6) foi encadeado com muito custo, sobretudo na passagem de uma chaminé absolutamente desagradável, impossível de atravessar com uma mochila nas costas. O segundo lance exige muito esforço e capacidade de proteger convenientemente ao mesmo tempo que se realizam potentes bloqueios de braço em gancheios “mais ou menos” bons (para mim foi mais “penduranço” ao bom estilo… estilo?!). No entanto, os passos foram ensaiados e a proposta de dificuldade para este largo pode bem estar no M7+, com a interrogante na questão fundamental: “E se as condições estivessem boas?”


As fissuras são boas para proteger e ganchear mas... a pilha faltou!


Um mega lance sem história (M3) com 65 metros (ensamble) permitiu aceder ao último largo divertido, constituído por uma fissura larga diagonal para a direita (M4+), que obrigou a um “elegante” reptanço inicial.


Em escalada mista vale (quase) tudo, passos de joelho incluídos. 


Tufo-tracção!


Feitas as contas e em jeito de conclusão final, para nós, apesar de curta, a época invernal na Serra da Estrela acabou por ser bastante proveitosa.

Venha lá então esse Verão!


 The End


Paulo Roxo


Os croquis por ordem cronológica:


1. Mini-Micro. 45m, M5, M4+
2. Piqueroxinha. 15m, WI2+
3. Anatomia do antebraço. 50m, M5+, M6+
4. Tentativa e erro. 85m, WI5/M6+, M5+
5. Chaminix. 30m, M6+
6. A conquista dos inúteis. 125m, M6, M7+(?), M3, M4+
















quarta-feira, fevereiro 10, 2016

Pinheirinhos selvagens

PINHEIRINHOS SELVAGENS


A chuva no nosso caminho.


“Caramba! A chuva é toda para mim!” – gritei à terceira molha, já no ultimo largo.
Sabíamos que o dia não ia estar solarengo, mas a fome daquele calcário era tanta, que decidimos ainda assim tentar escalar na baía dos Pinheirinhos.
Passou-se mais de ano e meio sem uma única visita, resultado da recuperação do acidente do Paulo. Este local de beleza indescritível, indiscutível, que carinhosamente chamamos do “nosso quintal”, não nos via desde... nem me recordo de quando! Foi como se estivéssemos estado ali ontem mesmo, a mesma grandeza, a mesma água límpida azul-turquesa, onde os cardumes de peixes se avistam desde uma altura de noventa metros. Noventa metros acima do mar, enquanto preparávamos o rapel para a base do “Esporão do pé descalço”, víamos os cardumes de peixes lá em baixo, umas quantas medusas que dançavam ao sabor da corrente, as gaivotas e os corvos marinhos, a fauna residente da baía à qual naquele Domingo nos juntámos. Sentíamos que fazíamos parte de tudo aquilo, creio mesmo que aquele pedaço de terra sentiu a nossa falta, por isso acolheu-nos num dia que... dificilmente se imaginaria que seria um bom dia para escalar uma nova via.
Arriscámos rapelar até á base da parede e, recuperadas as cordas, caíram os primeiros pingos.
“Podia ter começado a chover à meia hora! Escusávamos de descer!”. O comentário do Paulo era mais do que justificado. Já não havia escape. Entre nós e as mochilas havia uma centena de metros para escalar, ou seja, a perspectiva de o fazer com rocha molhada não era algo que nos agradasse, mas... naquele momento não tínhamos outra opção senão conformarmo-nos com a situação e desfrutar o que de bom ou mau os Pinheirinhos tinham reservado para nós naquele dia.
A chuva parou e a rocha que ainda não estava encharcada secou. Secou o suficiente para o Paulo escalar o primeiro largo de travessia tranquilo. Aquele primeiro largo foi uma espécie de aproximação à via. Olhando para o Cabo Espichel viam-se nuvens grossas e chuva, muita chuva que ainda não tinha chegado até nós.


Lá ao fundo, vêm mais nuvens e... chuva! Entretanto ainda nos maravilhamos com a parede principal dos Pinheirinhos.


“Podes viiiiiir!”. Conheço bem este grito e quando o escutei já tinha os pés de gato calçados, pronta para me fazer à rocha. De repente, o branco do calcário sarapinta-se, sarapinta-se de gotas grossas, o calcário e o meu impermeável que por sorte - ou não - já ia vestido. A primeira molha já ninguém me tirava.
Chego à reunião, confortável por debaixo de um pequeno tecto. Nessa altura a chuva já tinha parado e o calcário secava com rapidez, afagado por um sol forte que dava ao dia um sabor de contrastes. As nuvens, essas seguiam espessas no horizonte escondendo por vezes a luz do astro rei.
Com rapidez o Paulo inicia o segundo largo, este já com menos sabor a travessia. Eu, na reunião avaliava a direcção do vento...das nuvens...


A escalar o primeiro lance... à chuva!


“Reuniãããããooooo! Podes viiiiiir!”. Segundo largo. Inicio novamente de impermeável bem fechado. “Já pinga... já chove!”. Gotas gordas teimam em estragar-me o gozo da escalada. Mãos enlameadas, pés a patinar, tento progredir com rapidez e para isso o preconceito deixa de existir. Um friend significa apenas dois metros conquistados com mais rapidez. Chego à segunda reunião algo encharcada. A chuva pára. Curiosamente parece respeitar o primeiro de cordada... é justo! Quem vai à frente safa-se com rocha seca, as forças da natureza conspiram a favor do Paulo e lá vai ele apressado no terceiro largo, a meu ver, o mais bonito da via. Vejo-o ultrapassar uma sequencia de fissuras ligeiramente extra-prumadas de presa boa. Venho depois a confirmar a excelência da rocha, que até ao momento se revelou de muito melhor qualidade do que esperávamos.
Desta tenho sorte, desfruto de um belíssimo largo, rocha boa, fissuras atléticas de presa grande, um largo de deixar qualquer um sorridente. Chamam os espanhóis a este tipo de escalada “desfrutona”, confirma-se! E pela primeira vez no dia, escalo um largo seco. “YEAHHHH!” Desta safei-me, chego à terceira reunião sem chuva. O Paulo segue outra vez... tudo seco, sorte. Eu aproveito para apreciar aquela paisagem da qual tive tantas saudades.


Uma breve trégua de céu azul, permite desfrutar do largo mais bonito da via.


O dia vai agora longo e falta apenas um largo para atingir o topo da falésia. Três a quatro metros acima e... ”AHHHHHH!!!”. Conheço bem aquele grito de pânico, é uma verbalização de medo que me deixa de imediato tensa, na verdade, assustada. No segundo que durou o drama, olho para cima à espera da queda do escalador e vejo sair um falcão, disparado em voo rasante à cabeça do Paulo. O susto cedeu o lugar a um enorme sorriso e a umas quantas gargalhadas.
- Está aqui um ninho!
- E tem ovos?
- Não, não tem nada.
- O bicho deve ter apanhado um susto ainda maior que o teu!


O Sol deixa-se cair no horizonte. Ambiente "National Geographic!"


Já comentávamos que o dia parecia saído de um qualquer programa de “National Geographic”. Uns minutos depois, é a minha vez de gritar:
- Golfiiiinhoooooos!!! Golfiiiiiiiinhos! Paaaauuuuulo, olha para a base do esporããããooo! Montes de golfiiiinhos!
- Espectáááááculo!!!! São buéééés!
Nada como um bando de golfinhos a saltitar, rebolar, cambalhotar na água para tornar dois seres humanos ainda mais felizes. Naquele regresso aos Pinheirinhos, a falésia recebeu-nos como se fossemos da casa. Aproveito para continuar a apreciar aquela paisagem da qual tive tantas saudades. Algumas gaivotas, certamente agradecidas pela abundância de peixe naquele dia, alimentam-se, mergulham com elegância para aparecerem segundos mais tarde à superfície. Delicio-me com o sabor da natureza selvagem do lugar, mas o azul do céu volta a desaparecer e percebo que vou levar a terceira molha... a terceira bátega de água. O Paulo, escala todo o largo com rocha seca.
Após o novo grito de reunião apresso-me. A escalada não é difícil, ainda assim as mãos e pés-de-gato molhados tornam o largo menos prazenteiro.
Algures pelas cinco da tarde estávamos os dois no topo da “PINHEIRINHOS SELVAGENS”, húmidos e felizes com a forma com que os Pinheirinhos nos acolheram neste regresso.
Mas o dia ainda não estava terminado! Sim, faltava ainda o regresso ao carro, ao cair da noite, e claro, com uma grande bátega de água para concluir em beleza! Desta, levámos os 2!
Daniela – 4 molhas!
Paulo – 1 molha!

Nota final: Entretanto retornámos ao sector para inaugurar uma nova via. Escalámos a “DESENGANA-TE” durante um belo dia de aventura em que sentimos a falta dos Golfinhos e… da chuva!

Daniela Teixeira



 A escalar o terceiro lance da "Desengana-te". Desta, a chuva não nos atormentou.


 A chegar ao final de mais uma nova via na "mais bela" grande falésia da Arrábida.


 Foto-cume!


Claro, os topos: